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L’Osservatore Romano, 9 de Junho de 2010
Acima de tudo autenticamente homens
Julián Carrón


Não esquecerei nunca o embate que senti durante o retiro espiritual com alguns sacerdotes na América Latina. Eu tinha acabado de dizer que à nossa fé muitas vezes falta o humano, quando se abeirou de mim um sacerdote. Disse-me que na época em que estava no seminário lhe tinham ensinado que era melhor esconder a sua humanidade concreta, não tê-la à vista «porque perturbava o caminho da fé». Este episódio fez-me estar mais ciente de como o cristianismo pode ser reduzido e do estado de confusão em que estamos chamados a viver a nossa vocação sacerdotal. Uma vez perguntaram a don Giussani o que recomendaria a um jovem padre: «Que seja acima de tudo um homem», respondeu, suscitando a reacção estupefacta dos presentes. Encontramo-nos nas antípodas da indicação dada ao seminarista: de um lado, desvia-se os olhos da própria humanidade pessoal, do outro, um olhar cheio de simpatia por nós próprios.

O que é que, então, se revela decisivo para a nossa fé e a nossa vocação? Do que é que precisamos? Don Giussani atribuiu frequentemente à «negligência do eu», à ausência de um autêntico interesse pela própria pessoa, «o supremo obstáculo ao nosso caminho humano» (Em Busca do Rosto do Homem, São Paulo, Companhia Ilimitada, 1996, p. 11). No entanto, é o verdadeiro amor a nós mesmos, a verdadeira afeição a nós mesmos que nos leva a descobrir as nossas exigências constitutivas, as nossas necessidades originais na sua nudez e imensidão, e, assim, a reconhecer-nos relação com o Mistério, exigência de infinito, espera estrutural. Só um homem assim “ferido” pelo real, tão seriamente comprometido com a sua própria humanidade pode abrir-se totalmente ao encontro com o Senhor. «De facto, Cristo – afirma don Giussani – coloca-se como resposta a àquilo que “eu” sou, e só uma tomada de consciência atenta e também terna e apaixonada de mim mesmo me pode abrir de par em par e dispor-me a reconhecer, a admirar, a agradecer, a viver Cristo. Sem esta consciência, até o nome de Jesus Cristo se torna um mero nome» (Na Origem da Pretensão Cristã, Lisboa, Verbo, 2002, p. 9).

«Não há resposta mais absurda que a resposta a uma pergunta que não se põe» escreveu Reinhold Niebuhr. Isto pode aplicar-se também a nós quando acriticamente acusamos a influência da cultura em que estamos imersos, que parece favorecer a redução do homem aos seus antecedentes biológicos, psicológicos e sociológicos. Mas se o homem é realmente reduzido a isto, qual é então a nossa função de sacerdotes? Para que servimos nós? Qual é o sentido da nossa vocação? Como resistir a uma fuga do real refugiando-nos no espiritualismo, no formalismo, procurando alternativas que tornem a vida suportável? Não seria melhor, obedecendo ao clima cultural, ser assistente social, psicólogo, agente cultural ou político? Como Bento XVI recordou em Lisboa, «muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?» (Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço, Lisboa 11-5-2010).
Tudo depende, pois, da percepção, em primeiro lugar por nós, do que é o homem e daquilo que corresponde realmente ao seu desejo infinito. A decisão com que vivemos a nossa vocação deriva, portanto, da decisão com que vivemos a nossa condição de homens. Só no interior uma vibração humana autêntica podemos conhecer Cristo e deixar-nos fascinar por Ele, ao ponto de dar-Lhe a vida para O dar a conhecer aos outros. «Porque tem a fé tem ainda uma hipótese?», perguntava-se há poucos anos o então cardeal Ratzinger. E respondia: «Eu diria: porque corresponde à natureza do homem. […] No homem vive indelével o anseio do infinito. Nenhuma das respostas que foram tentadas é suficiente. Apenas o Deus que se fez finito para rasgar a nossa condição de finitos e nos conduzir à imensidão da sua infinitude, responde à questão do nosso ser. Por isso, também hoje a fé cristã encontrará de novo o homem» (Fé, Verdade, Tolerância, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2007, p. 124).
Esta certeza de que Bento XVI continuamente dá testemunho, mesmo face a todo o mal que causamos aos outros ou a nós próprios – pensemos no caso da pedofilia – convida-nos a fazer um caminho para redescobrir e aprofundar a razoabilidade da fé: «a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. […]: só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além.» (Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço, Lisboa 11-5-2010). Só se experimentarmos a verdade de Cristo na nossa vida teremos a coragem de comunicá-la e a audácia de desafiar o coração das pessoas que encontramos. Assim, o sacerdócio continuará a ser uma aventura para cada um de nós e, por conseguinte, a ocasião de testemunhar aos irmãos homens a resposta que só Cristo é para o «mistério do nosso ser» (G. Leopardi).
Obrigado.

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